terça-feira, fevereiro 17, 2004

Ainda o caso JN

Reproduzo abaixo a íntegra da coluna desta terça de Nelson de Sá, na Folha (na minha opinião, o melhor clipeiro de telejormais), para não restar dúvidas sobre a edição histórica do JN. Como eu, ele também entende que de nada adianta um revista das Organizações Globo estampar a denúncia explosiva na capa, quando o mesmo grupo tem uma outra mão (e que mão) que afaga.

"O que seria dos governos no Brasil, sem a Globo, ou vice-versa.
A revista da Globo, sexta, anunciou em letras vermelhas o "Dinheiro sujo":
- Vídeo mostra homem que cuida dos interesses do Planalto no Congresso negociando com bicheiros o favorecimento numa concorrência.
Brasília entrou em transe. Mas passou o Bom Dia Brasil, o Hoje e nada.
Chegou o Jornal Nacional e William Bonner leu a manchete -daquelas que entram para a história, ao lado das diretas e do debate de 89:
- Um bicheiro diz que pagou propina ao chefe das loterias do Estado do Rio, no governo de Benedita da Silva.
Benedita? Mas o que ela tem a ver com isso? Onde foi parar José Dirceu? Mais manchete, com Fátima Bernardes:
- Parte do dinheiro era para campanhas eleitorais.
Pobre Benedita, sempre ela. Volta Bonner:
- O crime -em 2002- foi registrado em vídeo.
E Fátima:
- Após a revelação das fitas, ex-chefe das loterias é demitido do emprego atual...
E Bonner:
- ... Subchefe de Assuntos Parlamentares da Secretaria de Coordenação Política com sede no Palácio do Planalto.
O palácio, finalmente.
Mas aí o telespectador, depois de tantos ex-chefes e subchefes e enunciados tortuosos, trocou de canal ou divagou.

No primeiro bloco do JN de sexta, outro assunto:
- O menino Iruan passou a noite com a avó.
Segundo e nada. Terceiro e nada. Quarto bloco, pelo meio, entra a história:
- A reportagem mostrou que o ex-presidente da Loteria do Estado, no governo Benedita, cobrava propina.
De novo Benedita. Começa o relato e logo:
- Waldomiro Diniz era o presidente da Loterj no governo Benedita.
Muita Benedita, nada de José Dirceu. Surgem os vídeos com os diálogos. Noticiam a demissão de Waldomiro, as investigações. De repente:
- O ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, não quis se pronunciar.
O telespectador se intriga: por que ele deveria se pronunciar, se nada até então o vinculava à denúncia?
Foi a única menção a Dirceu -e ainda assim com a imagem de Aldo Rebelo, "o atual chefe de Waldomiro".
Depois falaram tucanos, mais petistas etc. Até chegar à última informação:
- A assessoria de Benedita da Silva informa que não localizou a ex-governadora, em viagem de férias, no exterior.
Assim é crueldade.

O JN foi outra coisa nos dias seguintes, inclusive ontem. O trabalho estava feito.
Mas sempre se pode contar com Boris Casoy. Do âncora do Jornal da Record:
- O fato é o seguinte. Um subchefe da Casa Civil de Lula é flagrado em vídeo e confessa que está tomando dinheiro. Esse senhor, da estatura moral de uma latrina, pede dinheiro para si mesmo e para as campanhas. Esse homem, da confiança do ministro José Dirceu, um amigo dele, que dividiu apartamento com ele, é uma cunha do crime organizado dentro do Palácio do Planalto.
Terminou cobrando apoio do PT à CPI e exigindo passar o Brasil a limpo."

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