quarta-feira, agosto 25, 2004

No campo de concentração

Sobre "Olga" publiquei esse texto na Gazeta... o filme abriu Gramado e tive o desprazer de encontrar a simpática Camila Morgado duas vezes.. a celebrity não tirou os óculos escuros durante toda o debate com o público no festival gaúcho....

São Paulo, 13 de Agosto de 2004 - J ayme Monjardim ganhou projeção nas produções audiovisuais brasileiras ao dirigir, em 1990, a telenovela "Pantanal", na extinta Rede Manchete. Escrita por Benedito Ruy Barbosa, a trama passada no Pantanal mato-grossense entraria para a história da televisão brasileira por sua "estética cinematográfica", como escreve o especialista no gênero, Mauro Alencar no livro "A Hollywood Brasileira – Panorama da Telenovela no Brasil". Não é de se estranhar, portanto, que a estréia de Monjardim na direção de longas-metragens para o cinema com "Olga" seja marcada por características herdadas dos programas ficcionais da telinha. O próprio diretor confirma, orgulhoso, a herança na maneira de contar histórias por meio de imagens transpostas da TV para o cinema. "Olga", que tem estréia prevista para 250 salas na sexta-feira que vem, sendo antes exibido no encerramento do 8 Festival de Cinema Judaico de São Paulo, no próximo domingo e na sessão de abertura do Festival de Gramado no dia 16, é mais um blockbuster nacional produzido pela Nexus Cinema, em parceria com a Globo Filmes, a Europa Filmes e a distribuidora Lumière. Com gastos na casa dos R$ 12 milhões, o filme tem todas as características de uma minissérie produzida pela Rede Globo, emissora pela qual Monjardim realizou seus últimos trabalhos para a televisão, o que não constitui grande novidade, haja vista que boa parte dos trabalhos em que a Globo Filmes se envolve na produção mantém as características gerais dos formatos consagrados por programas televisivos. No caso de "Olga", a premissa também é válida. Boa parte do elenco do novo longa, inspirado no livro homônimo do jornalista e pesquisador Fernando Morais, publicado em 1985, provém de "A Casa da Sete Mulheres", dirigida pelo próprio Monjardim e exibida pela Globo em 2003. Além de Camila Morgado - que na obra de Maria Adelaide Amaral interpretou a personagem Manuela - na pele da heroína-título do filme, também surgem como espólio da minissérie, no elenco do longa Werner Schünemann, Eliane Giardini e Murilo Rosa. Porém, os nomes globais que estão em "Olga" não param por aí. Para interpretar o capitão Luís Carlos Prestes, líder comunista mitológico na História do Brasil que se apaixonou pela militante judia alemã, foi escalado o ator Caco Ciocler e para viver a mãe de seu personagem, Dona Leocádia Prestes, ninguém menos que Fernanda Montenegro. O filme reúne atores de peso até para interpretar papéis de menor destaque, como é o caso de Osmar Prado, que vive Getúlio Vargas, presidente do País, na época em que se passa a narrativa, que permitiu a entrega de Olga Benário à Alemanha Nazista, e Leona Cavali, que vive Maria, amiga de Olga durante sua permanência na prisão, no Brasil. Contudo, a trupe estelar, não é suficiente para solucionar o maior problema do filme: a mediana atuação de Camila Morgado. Jayme Monjardim declarou que precisava de uma atriz cujos olhos vibrassem para interpretar a personagem, haja vista que mesmo as poucas fotos em preto-e-branco que restam da militante comunista, deixam transparecer pelo olhar a personalidade que Olga possuía. O diretor julgou oportuno unir a beleza dos olhos de Camila ao sucesso obtido com sua personagem em "A Casa das Setes Mulheres". Ocorre que, mesmo tendo feito treinamento militar e preparação física rigorosa, emagrecido sete quilos, raspado o cabelo para viver as seqüências que se passam no campo de concentração de Ravensbrück, e mergulhado no universo de Olga por meio de filmes antigos sobre o Holocausto judaico e das cartas escritas por ela para Prestes, Camila parece não ter conseguido se livrar da frágil e contemplativa Manuela. Presente em pelo menos três quartos das cenas do longa, a atriz passa a maioria do tempo arregalando seus olhos azuis, como se este fosse o gesto mais importante para se dar vida à personagem. Seu desempenho maquinal e distante não consegue transmitir a força da personalidade carismática e intensa de Olga, revelada por Morais em seu best seller, por vezes eclipsando a performance de Caco Ciocler, que "encarnou" em Prestes, de tão semelhante que ficou com o líder comunista. Se a atuação de Camila deixa a desejar, nos quesitos direção de arte e fotografia, feitos respectivamente por Tiza de Oliveira e Ricardo Della Rosa aliás, são perfeitas, reconstituindo com esmero e perfeição cenas que se passam na Alemanha, Rússia e Brasil, entre o fim dos anos 30 e início dos anos 40, em pleno Rio de Janeiro. Enquanto Della Rosa dá um tom acizentado à película, para transmitir o clima sombrio e triste que marca a história do casal, Tiza escolheu meticulosamente cada locação. Além de cobrir uma área de 2 mil metros quadrados para filtrar o sol tropical, "fez nevar" com isopor e xampu. O campo de concentração reconstruído para a história ao lado de uma antiga fábrica têxtil, em Bangu, é tão perfeito como os feitos para clássicos recentes sobre o Holocausto, filmados nos Estados Unidos, como a "Lista de Schindler", de Spielberg. A diretora entendeu perfeitamente que cenários e figurinos devem ser parte ativa da história, ajudando a contá-la. A transformação do livro em roteiro, feita por Rita Buzzar, também produtora do filme, é bem-feita e arrancou elogios de Morais por sua exatidão histórica, que não tira o caráter humanístico das personagens. Pela produção cuidadosa e pela temática judaica, "Olga" torna-se um potencial candidato para concorrer à vaga de "Filme Estrangeiro" no Oscar de 2005. As inscrições para longas brasileiros estão abertas no Ministério da Cultura, no Brasil, até o dia 21 de setembro. Embora Rita Buzzar e Monjardim tenham declarado que ainda não pensaram sobre a hipótese, nunca é demais lembrar que a maioria dos acionistas das grandes majors cinematográficas americanas é judia, o que tornou recorrente a premiação de filmes que retratam as atrocidades cometidas aos judeus durante a Segunda Guerra. "Lugar Nenhum da África", por exemplo, de Caroline Link, ganhador do Oscar de "Filme Estrangeiro", em 2003, tem a mesma temática e uma história de amor, usando como pano de fundo acontecimentos históricos, da mesma maneira como ocorre em "Olga". O longa não possuía a fotografia e direção de arte impecáveis que o "similar" nacional possui. O elenco também tem interpretação mediana, o que até certa medida exime Camila Morgado, sem contar que a produção brasileira é engrandecida por Fernanda Montenegro, que já concorreu ao prêmio americano como "Melhor Atriz", por "Central do Brasil". O filme de Monjardim está com o passaporte na mão, como Prestes e Olga quando vieram da Europa, de navio, em 1934, disfarçados de um rico casal português. A viagem é a origem do romance que ajudou a mudar os rumos da história política brasileira nos anos 30. Bem que a representação dela nas telas poderia mudar a história da participação do atual cinema brasileiro no Oscar. (Gazeta Mercantil/Fim de Semana - Pág. 7)(Márcio Rodrigo)

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