segunda-feira, abril 05, 2004

A vida é foda

Eu estava devendo a vocês a continuação do encontro com o meu irmão.

Não escrevi antes porque não teve nada de mais, tipo novela mexicana, com lágrimas, música de pianinho ao fundo, etc. A gente se abraçou, ele conheceu a filhinha dele, vi que ele mudou muito pouco, apenas ganhou uma barriga mais protuberante, mas o cabelo dele não está branco e a voz e o jeito de falar meio de “peão” são os mesmos. Demos muita risada quando ele quase derrubou a neném no chão, e conversamos um pouco, como velhos amigos, nem parecia que passaram nove anos.

Mas para ele, a gente mudou muito. Ele achou nosso irmão mais novo muito velho, por causa da calvície do cara. Ele já tinha se espantado quando viu fotos dos nossos pais, disse que estavam muito mais velhos, com muitos cabelos brancos e rugas no rosto. Tivemos pouco tempo para conversar, porque ele ficou só um dia em casa. A mulher/namorada dele queria a todo custo voltar para Juquiá (perto de Peruíbe), onde mora a mãe dela e eles montaram uma casa para passar alguns meses, até a Aiko crescer um pouco e os três retornarem ao Japão. Ah, a minha família não gosta muito dela. Que merda não? Eu já disse para minhas irmãs não criticar a escolhida do mano na minha frente. Tudo bem que ela vem de uma família problemática, e não é uma pessoa fácil, mas a gente tem que torcer pela felicidade deles.

Mas hoje, conversando com o meu professor/psicólogo de inglês, surgiu um fato novo. O mestre disse que não é normal o cara passar nove anos fora e ficar só um dia em casa. Isso é comportamento de quem está fugindo de alguma coisa. Para o teacher, quando meu irmão foi pro Japão da primeira vez, 14 anos atrás, foi uma fuga da vida sem perspectivas aqui no Brasil (é o único dos cinco irmãos que não fez faculdade), das responsabilidades de ser o filho mais velho, da situação difícil em casa, porque a gente era muito, muito, muito pobre.

O pior é que eu concordo com o filho da puta do teacher.

Lá na terra do sol nascente ele trabalhou em mais de 20 empregos. Nós nunca sabíamos em que cidade ele estava, porque às vezes passava meses sem ele ligar para casa. Mas também, ele teve todos os carros que quis ter, uns 30. Antes de voltar, ainda deixou uma pick-up guardada na garagem de um amigo, com as coisas dele, pronta para seu retorno, ou fuga.

Já estou conformado com o fato de que vou passar mais dez anos ou vinte, sem ver meu irmão e minha sobrinha. Como aconteceu com o meu amigo Padovani, minha outra grande influência. Não faz mais parte da minha vida.

Essas coisas me fazem lembrar do filme “Confissões de Henry Fool”, do Hal Hartley. A “moral” do filme é que nem sempre o cara que é a sua maior influencia é o melhor da vizinhança.

Desculpa qualquer coisa gente.

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