sábado, dezembro 22, 2007

Esta é uma versão sem cortes do texto que postei no blog da Imagem Corporativa .

Natal sem Natal

Às portas do centenário da imigração japonesa, acho que cabem alguns parênteses. Para mim o Natal e o Ano Novo nunca tiveram o mesmo significado que possuem para vocês, pois são conceitos cristãos e eu fui criado numa família de imigrantes japoneses.

Meu pai veio do Japão em 1951, aos 21 anos de idade. Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, a ilha de Okinawa, onde ele vivia, estava totalmente destruída. Aquela faixa de terra de 50 quilômetros foi palco de umas das batalhas mais longas do conflito no Pacífico. Foram três meses de bombardeios ininterruptos 24 horas por dia. Após a rendição do imperador, os habitantes podiam escolher ficar e tentar reconstruir tudo, ou arriscar a sorte em outro país. Meu pai, meu tio, minha tia e os meus avós pegaram um navio para Santos. Todos eram shintoístas, mas é claro que aqui na Terra Prometida as coisas mudaram um pouco.

O Shintoísmo é a principal religião do Japão, fundada em 660 a.C. pelo primeiro imperador da atual família imperial, que se autoproclamou descendente da deusa do sol, filha do deus Shinto. Até hoje - 2.667 anos depois - todos os imperadores são considerados descendentes da divindade. É a mais longa linhagem da nobreza terrena.

Mas aqui no Brasil os descendentes dos meus avós (este que vós escreve, irmãos e primos) juram de pés juntos que são católicos. Mas nem por isso são todos batizados na Igreja e ainda conservam tradições shintoístas (pagãs), como acender dois incensos aos parentes mortos, colocar comida (oferendas) num pequeno altar com as fotos dos entes queridos, entre outras coisas.

Ia falar também da benzedeira que dava passes na gente quando eu era pequeno e ainda descarregava a casa, mas isso já seria too much information. Mas falando da minha infância, eu lembro que lá nos primórdios a gente nem enfeitava árvore de Natal. Quando meus avôs eram vivos, eles nunca se importaram muito com o feriado cristão. Aliás, eles nem falavam português.

O Natal no Japão é algo muito recente, pois apenas 1% da população é cristã, o resto se divide entre shintoístas e budistas (que surgiram no Japão por volta do século seis d.C.). A data foi levada para lá pelos soldados norte-americanos que ocuparam o país após o término da guerra. Durante algumas décadas foi vista pelos japoneses apenas como uma festa infantil, por causa da figura do Papai Noel e dos vários doces. Com a ocidentalização cada vez maior do Japão, o Natal passou a ser um evento de caráter oficial. Mas as comemorações se restringem à noite do dia 24 e o panetone inexiste, o que reina é o bolo de natal! No dia seguinte os dekasseguis vão para o serviço chorando, pois 25 de dezembro não é feriado lá. Não deve ser fácil estar longe de casa e dos parentes e ainda trabalhar no Natal.

O Ano novo também é diferente no Japão. Chamado de shogatsu, é muito mais festejado do que o Natal e as comemorações vão até o dia sete de janeiro. Nesse período os japoneses, inclusive os que moram no Brasil, aproveitam para visitar os parentes e levar oferendas para colocar nos altares das casas e acender incenso.

O calendário nipônico é diferente do gregoriano, é contado pelo reinado dos imperadores japoneses. Enquanto estamos em 2007 d.C., os japoneses estão no ano 19 da era Heisei (era da paz e concretização), que teve início em 1989, com a ascensão de Akihito ao Trono do Crisântemo, após a morte do seu pai, Hirohito, cuja era durou 63 anos e foi chamada de Shouwa, ou da paz esclarecida. Mas não se iludam, foi esse mesmo imperador quem levou o Japão à Segunda Grande Guerra e depois teve milhões de seus súditos mortos pelos americanos e suas “maravilhosas” bombas atômicas. Hirohito assinou a rendição japonesa a bordo de um navio de guerra norte-americano e teve a sua divindade confiscada: ele e a família imperial passaram e ser gente comum, embora muitos japoneses ainda não acreditem. Forçadamente o imperialismo deu lugar ao parlamentarismo e um país de passado belicoso ganhou uma constituição pacifista, que extinguiu o exército imperial (cujo símbolo era a bandeira com o sol vermelho estilizado) e proibiu a construção de armas nucleares.

No 1º de janeiro todos os japoneses ficam um ano mais velhos. Isso mesmo, eles comemoram um aniversário coletivo. Lá não se conta o dia e o mês de nascimento, só se conta o ano, que também é o que importa para definir o signo no horóscopo chinês, que os japoneses seguem. Eu tenho uma sobrinha que mora no Japão e nasceu no dia 2 de março de 2004. Lá ela simplesmente nasceu no ano 16 da era Heisei e é de macaco. Para os japoneses ela terá cinco anos já a partir de 1o de janeiro próximo. Sim, cinco anos, porque no Japão todo mundo já nasce com um ano de idade, da mesma forma que a era de novo imperador sempre começa no ano um. 1989 já contou como o ano um da era Heisei e 2008 será o ano 20. Na verdade, como tudo no Japão, a tradição do aniversário coletivo está se perdendo, virou coisa dos antigos.

Bom, espero que agora vocês entendam porque Natal e Ano novo são conceitos relativos na mente desse pobre missivista nipo-brasileiro.

PS: 2008 será o ano do rato (meu signo), que – dizem – representa abundância, prosperidade e menos guerras.

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