terça-feira, dezembro 13, 2005

Vinicius

Imagino que já tenham assistido. Se não, corram logo para o cinema. Uma ode à felicidade e à amizade. Vendo o filme e lendo esta crônica do Tutty Vasques lembrei da gente...

Chega de saudade
Tutty Vasques

Vinicius, o documentário de Miguel Faria Jr., é programa imperdível para quem, aporrinhado pelo noticiário, já não lembra direito como pode ser gostoso viver e, melhor ainda, conviver. Uma dúzia de amigos em torno de um copo, um papo, uma piada, um cantinho, um fogão, a música, um flerte... Simples assim! Não dá para entender por que o carioca foi deixando de se freqüentar – eu pelo menos tenho uma penca de amigos do peito dos quais não faço idéia de como seja a sala da casa. É esquisito! A gente se vê no trabalho, no bar, no restaurante, no play do amiguinho do filho, na estátua do Zózimo, no Arpoador, na Lapa, no Baixo, no Jardim Botânico, nunca em casa a troco de nada, como fazia Vinicius com Tom, Chico, Baden, João, Dorival, Toquinho e tantos outros parceiros das múltiplas vidas artísticas do poeta. Alegar que não dá mais pra cultivar safra igual de amigos, francamente... Será que é preciso um time de gênios para armar um convescote doméstico, caramba?

O conceito de "casa aberta" – como eram as tantas de Vinicius – ganha no filme o testemunho emocionado de Edu Lobo, sócio atleta desse clube para onde uns levavam uísque, outros cerveja, todos fumavam. Não há espectador de meia-idade que nessa hora não fique tocado pelos próprios encontros de turma que guarda na lembrança junto com um Rio que também já não existe. Blablablá! Chega de saudade, a realidade é que o carioca não se freqüenta mais porque, porque... Por quê? Sei lá por quê! Alguma explicação deve haver para a classe média, que morre de medo da violência nas ruas, não parar um minuto em casa para receber amigos em total segurança. Pode ser que o calor e a beleza da cidade empurrem a população para as ruas, mas Ipanema não era menos convidativa lá fora na época de Vinicius. Saí do cinema Leblon pensando em como era mais simples a vida na época em que as pessoas inteligentes tinham tempo para não fazer nada.

Já o citei em outros artigos, mas não resisto aqui a reproduzir o depoimento do artista plástico baiano Calazans Neto no CD duplo Vinicius 90 Anos. Diz lá o pintor sobre a convivência com o poeta em Itapuã (carregue nas tintas do sotaque, por favor):

– Todas as manhãs nós conversávamos até o fim do dia. Conversávamos sobre o quê? Sobre a coisa que a vida tem de boa, coisas amenas. Não queríamos mudar nada, queríamos aceitar a vida como ela era: gostosa, morna, engraçada. Então nossas conversas eram sobre como a gente podia viver um dia em Itapuã. Era do nascer do sol ao morrer do sol às vezes sem fazer absolutamente nada. Chega um tempo em que você descobre que o bom é não fazer nada. No dia em que você consegue – como nós, eu e Vinicius conseguíamos – ver o dia passar conversando amenidades da manhã atéééééé o sol se pôr é quando você realmente está tranqüilo, quando você não é neurótico.

Cada um com seu prazer. O meu volta e meia é reunir uns dez amigos em casa para o almoço de sábado. Eu mesmo cuido da comida; o vinho e uma eventual troca de CD são responsabilidade de todos. Falamos muita bobagem a tarde toda. A receita tem nos convidados seus principais ingredientes. Melhor que nem todos se conheçam ou façam a mesma coisa na vida. O bom humor, este sim é indispensável e preponderante. Faço um esforço danado para que o almoço fique mais gostoso que engraçado, mas temo quase sempre perder essa guerra, muitas vezes, modéstia à parte, até por culpa de minha própria gaiatice. Não importa quem vença, rolam ali cinco, seis horas do mais intenso prazer pela simples razão da convivência. Qualquer história banal que se conte no sabadão do cafofo parece mais inteligente e divertida que grande parte do noticiário nacional.

A vida, definitivamente, não tem nada a ver com essas coisas que a gente lê nos jornais. O Brasil, como se sabe, virou uma imensa notícia enguiçada – deixa ele pra lá. Bobo!

Mora na filosofia: minha vida de cozinheiro amador tem me mobilizado muito mais que o futuro político de José Dirceu, por exemplo. E já que toquei no assunto quero aqui protestar contra a mixórdia do mercado carioca de iguarias finas. Como pode o Lula falar em maior acesso da população aos bens de consumo se tenho de ir a São Paulo para comprar um bom mix de pimenta-do-reino? Não espalha, mas gasto num supermercado dos Jardins toda hora livre para compras entre uma e outra reunião de trabalho do lado de lá da ponte aérea. Corro para a Casa Santa Luzia, uma espécie de meca da gastronomia paulistana, e encho a mala de cafés, temperos, azeites, chás, ervas, não sei se devo dizer tudo o que levo na viagem de volta para casa. Digamos que saio pela Alameda Lorena carregado e, ali pela região da Oscar Freire e Bela Cintra, sinto-me em casa como alguém da família Mazzaropi vindo de tão longe para fazer supermercado, pobrezinho.

Estou pensando agora em reunir amigos para uma excursão à Santa Luzia. Vinicius toparia na hora se lhe narrasse a grandiosidade do estoque de bebidas importadas do lugar. Qualquer programa – mesmo os de índio como esse – fica muito mais divertido quando reunimos a tribo. Experimenta só!

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