quinta-feira, julho 15, 2004

DO DIA INTERNACIONAL DO ROCK
 

 
Terça passada atravessei a cidade pra fazer uma matéria na Capela do Socorro. E, no rádio, não paravam de falar da tal data.  O motorista deixou um tempo na Kiss FM e eu fiquei ouvindo os clássicos e lendo as três páginas do Estadão sobre o assunto. Numa das matérias, o Sérgio Augusto falava que o rock inventou a juventude, que fez os garotos primeiro passarem a ouvir
músicas diferentes dos pais e depois terem atitudes diferentes (ou serem consumidores diferentes).

Começou a tocar Houses of the Holy, do Led Zeppelin e eu comecei a cantarolar. O motorista, cinquentão, deu risada e  perguntou:

_Poxa, você pegou essa época?

Me senti com cara de velho com ele perguntando isso de um disco gravado em 1975. E depois falei que boa parte da minha geração ouvia discos de bandas da década de 70 quando tinha seus 15, 16 anos (acho que quase ninguém mais faz isso). Ele vira pra mim e fala:

_ Quando o Led fazia sucesso, eu estava morando em uma comunidade hippie.

E no meio das Interlagos e Robert Kennedys sem fim, ele foi contando a história dele. Que tinha nascido em São Paulo, visto show dos Mutantes no Ibirapuera, e que aos vinte e poucos se mudou para Piraí, perto do Rio, morar em uma comunidade hippie com 14 pessoas.
 
- Cada um fazia um artesanato. Eu fazia sandálias de couro e a gente vendia em Ipanema no final de semana.

Morou quatro anos na tal da comunidade. Conheceu uma mulher por lá, transaram, amor livre, ela ficou grávida, o menino foi crescendo e ela saiu da comunidade. Foi morar com o filho, daí um dia abandonou a casa e deixou um bilhetinho pra ele dizendo: "Agora é sua vez de cuidar do menino". A mulher nunca mais apareceu, ninguém sabe se está viva, onde mora... O filho
virou tatuador, trabalha no centro.

- Ele ganha em um dia o que eu ganho no mês. Fui lá esses dias e achei um absurdo. Tinha um cara, um negão, colocando um brinco em cada peito. Cada loucura essas pessoas fazem...

Mas você fez as suas também, eu perguntei. E ele contou dos chás de cogumelo, dos desafios de futebol com o sítio vizinho, que era o dos Novos Baianos (disse que a Baby entrava em campo pra bater em quem acertasse a canela do Pepeu). Dos becks básicos às viagens de ácido. Numa delas, em uma praia, ele olhava a areia e via um monte de números; olhava a praia e via um
monte de números....

Mas um dia ele deixou de ser totalmente louco. Prestou concurso público, virou investigador. Depois saiu e virou motorista. Primeiro do Olympia, onde voltou a ter contato com músicos. Diz que levou a Cássia Eller seis dias antes da morte e jura que ela não estava cheirando, mas que fumou quatro maços de Hollywood em um dia. E fez três dias de Caetano Veloso. Disse que o cara saiu do show um dia com a Leticia Spiller e no outro com a Luana Piovani.

- No primeiro dia, a mulher dele foi embora. Como é insuportável aquela mulher... nojenta demais.

Aí foi pro Estadão e fica lá levando repórter e ouvindo a Kiss FM. Continua ouvindo rock, se divertindo um bocado, e fazendo algumas loucuras, as que a idade ainda aguenta.
 
Tem 50 anos o motorista. A idade do rock. Que pelo jeito não inventou só a juventude...

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